Abertura da 4ÂȘ ConferĂȘncia Nacional LGBTQIA+ reafirma compromisso com a democracia e a diversidade
- 23 de out. de 2025
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Com 1.500 participantes e mais de 21 mil pessoas mobilizadas em etapas preparatĂłrias, evento consolida a reconstrução das polĂticas pĂșblicas voltadas Ă população LGBTQIA+
Depois de quase uma dĂ©cada sem uma edição nacional, a 4ÂȘ ConferĂȘncia Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ começou nesta terça-feira (21), em BrasĂlia, reunindo delegaçÔes de todos os estados e do Distrito Federal. O evento simboliza a reconstrução do diĂĄlogo entre Estado e sociedade civil e reafirma o compromisso do paĂs com os direitos humanos e a cidadania LGBTQIA+.
A mesa de abertura reuniu autoridades dos trĂȘs poderes, representantes da sociedade civil e lideranças polĂticas de diferentes partidos. Participaram da cerimĂŽnia a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, MacaĂ© Evaristo, a ministra dos Povos IndĂgenas, SĂŽnia Guajajara, a ministra de RelaçÔes Institucionais, Gleisi Hoffmann, o ministro da Cultura substituto, MĂĄrcio Tavares, e o ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Vieira de Mello Filho. TambĂ©m estiveram presentes as deputadas federais Daiana Santos, Duda Salabert, Erika Hilton, Jandira Feghali, Maria do RosĂĄrio e Luizianne Lins, alĂ©m da senadora Teresa LeitĂŁo e da secretĂĄria nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Symmy Larrat.
A ministra MacaĂ© Evaristo destacou que a abertura da conferĂȘncia representa um movimento histĂłrico, resultado da organização da sociedade e da eleição do presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva. Segundo ela, o momento atual Ă© marcado pela reafirmação da esperança e da vida. âEstamos aqui para reafirmar um novo pacto: um pacto com a vida, com a diversidade das famĂlias e com o respeito a cada pessoaâ, afirmou.
Durante a cerimĂŽnia, a ministra assinou a portaria que institui oficialmente a PolĂtica Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e tambĂ©m a portaria de Trabalho Digno, Educação e Geração de Renda LGBTQIA+, voltada a atender demandas da população, com atenção especial a pessoas negras e transexuais, promovendo inclusĂŁo produtiva e autonomia financeira. Para MacaĂ©, fazer polĂtica Ă© cuidar do povo brasileiro, com escuta, pluralidade e respeito: âUm paĂs soberano nĂŁo combina com fundamentalismo e preconceitos. A participação social Ă© a chave para um Brasil soberano.â
Na cerimĂŽnia tambĂ©m foram entregues dois relatĂłrios com propostas formuladas a partir das etapas preparatĂłrias da ConferĂȘncia Nacional: o RelatĂłrio Final do Grupo de Trabalho de Enfrentamento da Discriminação contra Pessoas LGBTQIA+ em Ambiente Digital; e a Carta de RecomendaçÔes do Grupo de Trabalho Intersexo, com estratĂ©gias para a promoção e a defesa dos direitos humanos das pessoas intersexo e com variaçÔes das caracterĂsticas sexuais no Brasil.
PolĂticas pĂșblicas e reconstrução democrĂĄtica
O conjunto das falas reforçou a ideia de que a reconstrução democrĂĄtica e o enfrentamento ao preconceito passam pela formulação de polĂticas pĂșblicas permanentes. De acordo com Symmy Larrat, a conferĂȘncia simboliza a consolidação de uma polĂtica construĂda a muitas vozes, especialmente pelo ativismo que resistiu mesmo quando tentaram silenciĂĄ-lo. âQuando nĂŁo quiseram que a gente falasse, este ativismo foi lĂĄ e fez, e trouxe delegadas, delegados e delegades atĂ© aqui.â
A ministra Gleisi Hoffmann destacou que o paĂs volta a se reunir âgraças Ă resistĂȘncia da população brasileiraâ e que garantir direitos significa garantir dignidade. Para ela, o momento Ă© de reconstrução: âVoltamos para avançar, com uma Secretaria exclusiva para os Direitos das Pessoas LGBTQIA+. NĂłs vamos vencer com dignidade e respeitoâ, assegurou.
O ministro da Cultura substituto, MĂĄrcio Tavares, lembrou que a cultura Ă© tambĂ©m um campo de afirmação de direitos. Segundo ele, as polĂticas culturais devem assegurar visibilidade, diversidade e inclusĂŁo. O ministro informou que o governo estĂĄ retomando o ComitĂȘ de Cultura LGBTQIA+, que atuarĂĄ em parceria com o PontĂŁo de Cultura na defesa da representatividade e no fortalecimento das expressĂ”es artĂsticas da comunidade.
JĂĄ a ministra SĂŽnia Guajajara ressaltou a importĂąncia da presença indĂgena no debate e reafirmou o compromisso do governo com os direitos humanos e o respeito Ă diversidade. Segundo ela, reconhecer, proteger e celebrar as diferenças Ă© um ato de amor e soberania. A ministra citou o Coletivo Timbira, formado por indĂgenas LGBTQIA+, como sĂmbolo de resistĂȘncia, memĂłria e futuro, e destacou que âa luta pelos direitos LGBTQIA+ tambĂ©m passa pelas aldeias, territĂłrios, rios e florestas. SĂł Ă© possĂvel o bem viver com respeito Ă diversidade. Um Brasil soberano Ă© um Brasil sem transfobiaâ, afirmou.
Diversidade e resistĂȘncia
Entre as parlamentares presentes, as falas destacaram o orgulho, a visibilidade e o compromisso polĂtico da comunidade LGBTQIA+. A deputada Daiana Santos ressaltou o orgulho de ser uma mulher lĂ©sbica e representar, no Congresso, a diversidade brasileira. Para ela, a maior riqueza do paĂs Ă© sua pluralidade cultural, que deve se traduzir em polĂticas pĂșblicas voltadas Ă s famĂlias e aos amores LGBTQIA+. A parlamentar afirmou que garantir a vida e a segurança das pessoas Ă© essencial para que sigam lutando e transformando a realidade.
A deputada Erika Hilton lembrou que o Brasil poderia estar mais avançado na garantia de direitos, mas reforçou a vitalidade do movimento. âSeguimos de pĂ©, porque somos a mudança.â Ela defendeu que a conferĂȘncia marque um novo capĂtulo de conquistas e resistĂȘncia: âNada poderĂĄ nos parar. Viva a nossa histĂłria, o nosso movimento.â
A deputada Duda Salabert homenageou pessoas que marcaram a luta por direitos e jĂĄ nĂŁo estĂŁo mais presentes. Segundo ela, a conquista de duas deputadas trans no Congresso Ă© fruto de uma trajetĂłria coletiva de resistĂȘncia. A parlamentar defendeu o fortalecimento de polĂticas que reduzam os Ăndices de travestis na prostituição e ampliem o acesso Ă educação e ao trabalho formal. âO MinistĂ©rio Ă© um avanço, a Secretaria LGBT Ă© um avanço, porque nĂłs nĂŁo queremos mais ser assassinadas.â Duda tambĂ©m anunciou a formação, em 2026, de uma Bancada Trans no Parlamento.
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Vozes da base e mobilização nacional
De acordo com Ayan Trix Gomes, pessoa delegada pelo PiauĂ, a conferĂȘncia Ă© um espaço essencial de escuta e reafirmação da democracia. Para Trix, o evento representa a rearticulação dos movimentos e a oportunidade de o poder pĂșblico ouvir diretamente as demandas da população LGBTQIA+. âEste Ă© o lugar dos movimentos sociais, da sociedade civil e, principalmente, do poder pĂșblico poder ouvir a genteâ, opinou.
Convocada em dezembro de 2023, a conferĂȘncia reĂșne cerca de 1.500 participantes e Ă© o ponto culminante de um dos maiores processos participativos jĂĄ realizados no campo dos direitos humanos. Desde o inĂcio deste ano, mais de 21 mil pessoas participaram de 150 conferĂȘncias estaduais, regionais e livres, que mobilizaram movimentos sociais, universidades, gestores pĂșblicos e representantes de todas as esferas de governo.
Ao todo, a etapa nacional conta com 1.212 pessoas delegadas eleitas, representantes dos 26 estados e do Distrito Federal, alĂ©m de 76 pessoas conselheiras nacionais, todas com direito Ă voz â e, no caso dos delegados, tambĂ©m a voto. O grupo se soma a 100 convidados e 100 observadores, compondo um pĂșblico diverso que reflete a pluralidade regional e social do paĂs.
Construindo o novo Plano Nacional
As propostas oriundas das etapas preparatĂłrias serĂŁo debatidas em grupos temĂĄticos e votadas em plenĂĄria atĂ© o encerramento da conferĂȘncia, na sexta-feira (24). As diretrizes aprovadas comporĂŁo a base do novo Plano Nacional de PolĂticas de Direitos LGBTQIA+, que orientarĂĄ as açÔes do Estado brasileiro nos prĂłximos anos.
Para a ministra MacaĂ© Evaristo, a conferĂȘncia reafirma o compromisso do governo com a democracia e a diversidade. âFazer polĂtica Ă© cuidar do povo brasileiro, consolidando um pacto com a vida e com o respeito a todas as pessoasâ, concluiu.
A 4ÂȘ ConferĂȘncia Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ consolida o reencontro entre Estado e sociedade civil na formulação de polĂticas pĂșblicas e reafirma o papel do Brasil como referĂȘncia internacional no enfrentamento Ă discriminação e na promoção dos direitos humanos.
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